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Agamenon Almeida De Souza

Há um tipo de homem que tem grande desprezo pelo ?imediatismo?, tenta cultivar sua vida interior, baseia seu orgulho em algo mais profundo e íntimo. Ele está um pouco mais preocupado com o que significa ser uma pessoa, com individualidade e originalidade. Gosta de solidão e recolhe-se periodicamente para refletir, talvez para acalentar idéias sobre seu eu secreto, do que poderia ser. Este, depois de tudo dito e feito, é o único problema real da vida, a única preocupação valiosa do homem: qual é o verdadeiro talento de cada um, seu dom secreto, sua autêntica vocação? De que maneira se é verdadeiramente ímpar, e como se pode expressar essa originalidade, dar-lhe forma, dedicá-la a algo para além de si mesmo? Como pode a pessoa tomar seu ser interior privado, seus anelos, e usá-los para viver mais caracteristicamente, para enriquecer tanto a si quanto à humanidade com a qualidade peculiar de seu talento? Na adolescência, a maioria de nós vibra com esse dilema, expressando-o seja por palavras e pensamentos, seja por uma simples dor surda e aspiração. Mas, em geral, a vida nos leva para atividades padronizadas. O sistema social de heróis no qual nascemos traça trilhas para nosso heroísmo, trilhas com que temos de nos conformar, às quais nos amoldamos de modo a poder agradar aos outros e tornamo-nos o que eles esperam que sejamos. E, em vez de trabalhar nosso segredo íntimo, aos poucos o escondemos e esquecemos, enquanto nos tornamos homens exclusivamente exteriores, empenhados continuamente no padronizado jogo de heróis no qual estamos por acidente, ligação de família, patriotismo reflexo, ou pela simples necessidade de comer e o impulso de procriar. O ?introvertido? não conserva essa busca interior plenamente viva ou consciente; esta representa algo mais que um problema vagamente consciente, como sucede com o homem imediatista engolido pela máquina. O introvertido acha que é um pouco diferente do mundo, tem algo em si que o mundo não pode refletir, não pode, em seu imediatismo e superficialidade, apreciar; e assim ele se mantém um tanto afastado desse mundo. Mas não em excesso, não completamente. Seria tão bom ser o que ele quer ser, concretizar sua vocação seu talento autêntico, porém é arriscado, poderia transformar seu mundo inteiramente. Afinal de contas, ele é basicamente sonhador, está em uma posição conciliatória: não é um homem imediatista, nem tampouco um homem real, apesar de dar a aparência disso. E assim ele vive em uma espécie de ?incógnito?, contente de divertir-se (em seus periódicos momentos de solidão) com a idéia do que poderia realmente ser; contente de insistir numa ?pequena diferença?, de orgulhar-se, em seu mais recôndito íntimo, dos seus sonhos. Texto extraído do livro ?A Negação da Morte? de Ernest Becker