Metades do meu Dragão

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Há quem viva o mundo como uma encruzilhada sem fim.Há quem o navegue na rejeição teimosa, por convicção ouinteireza, de bússolas ou astrolábios. Há quem dele trace ummapa e no mapa trace as rotas, não de destinos e rumos eetapas, mas, antes, as rotas da procura de via incerta e nortespor saber. Há quem em cada barco construa um convés semproa e nele um passadiço de onde perscruta rumo e norte edestino. E horizonte, por mais não buscar que a si mesmo.Essa poderia ser a imagem deste livro.Esta é, afinal, uma busca de quem a si mesmo se procura. Ede quem, alongados os passos nessa busca, nunca seencontra. “Metade de mim / é não ser metade de mim / e aoutra metade também”, assim proclama o poema primeiro.Poderia ser mais evidente esta certeza?Porque as metades são como linhas paralelas; paralelas até aoinfinito, pois nos afiança a crença antiga que nunca seencontram, posto que a mais moderna física nos garanta quehão-de encontrar-se, sim, lá onde o horizonte se perde de vista,se é que esse ponto existe na cartografia por inventar.São assim estes poemas, assumidamente feitos de metades.De metades, acrescente-se, dispersas pelo mundo ou, se sepreferir plagiar um outro poeta, pelo mundo em pedaçosrepartidas, o que é o mesmo.Porque este é um percurso de viagem, de errância, dedesencontro. E é, desde logo, um livro de raízes.Não, não são, apenas, as raízes na infância, na pátria distante,nesse outrora que um dia ficou adormecido no tempo semtempo de uma idade perdida. São essas raízes, é certo, que aliestão, logo no começo, mas também outras que nascem emmeio da viagem poética e um pouco por todas as páginasdesconjuntadas deste livro sem arrimo nem arrumo de datas esem fio de prumo de cronologias.Metades do meu Dragão13O eu que escreve estes poemas não é, não pretende ser,unívoco no que a raízes diz respeito. As raízes serão, afinal, assuas metades.Porque a matemática, aqui, é a negação da lógica. E o todointeiro que nestas páginas se plasma e se desvela édemasiado complexo para se encerrar, apenas, em duasmetades. Ao arrepio da razão matemática, as metades destetodo, aqui, são muitas. Tantas quantas as raízes.Raízes dentro de si, desde logo, que é onde se enraízam todosos poemas.São as “Metades da minha metade”, tentativa vã de esboçar oretrato da identidade, que do esboço tosco não passa, porquea identidade aqui pintada não se compadece com traços finos ecerteiros, muito menos precisos. Pertença de marinheiro detorna-viagem, sem cais definitivo, amarrado à utopia de umbarco de papel, poeta descrente de si, errante entre onascimento e a origem e a morte anunciada em epitáfiofalhado, são metades que nunca se encaixam, por serem partede uma identidade que em vão se procura.Raízes da terra deixada um dia, no Portugal longínquo, notempo da infância, da adolescência, da juventude.São essas as “Metades da raiz”, metades desconjuntadas, emboa verdade, por adensar cada raiz (e muitas são) emramificações mil.? a raiz da língua, expressa na palavra saudade, na palavrapátria, na palavra amor, na palavra madrugada. ? a raiz feitados rios da aldeia, ribeiro sem “desassombros”, um rio que “nãoé o fim do princípio, / nem o princípio de nada”; a não ser, masisso o poeta o não vê, o princípio de tudo, do seu tudo; são ascores da aldeia, as folhas da aldeia.Mas as “metades da raiz” só na aparência são um regresso àaldeia, à infância, à raiz. Prova disso é a metáfora do xadrez edo seu “cruzadismo labiríntico”, onde se resguarda, cabeçapousada na “almofada de poeta morto”. Sinal inequívoco deque aquele princípio nem é princípio nem é ponto de paragem.Raízes dos afetos ou, talvez melhor, raízes nos afetos, nasemoções, as raízes daquela busca que só há no verbo amar.“Metades do céu” lhes chama, e esse batismo tem a sua cargasimbólica.M. T. de Pinho14Aí se cruzam o sonho e a morte, o regresso e o desencontro, oamor levado numa pétala, uma só, a quem sabe “a cor detodas as flores”; aí se cruzam, ainda, a noite e a palavra. Essassão as metades onde tudo cabe: as “sete luas”, as “sete rosas”,as “sete pedras”, as “sete imagens”, os “sete beijos”. E milflores, de pétalas vivas ou de papel, que aguardam,pacientemente, enquanto a espera caminha num roseiralqualquer.Raízes nos lugares visitados, novos céus, novos azuis, novapátria, quem sabe?, por opção assumida, que este eu lançaraízes onde o húmus for fecundo e o sentimento encontrarterreno fértil para florescer.São, enfim, as “Metades do Dragão do Meio”, que nosremetem, quase sem ambiguidades, para novos céus, novasraízes, novos afetos. Aí passam diante de nossos olhos,porque diante dos olhos da lembrança de quem no-las traz,objetos, lugares, espaços, pessoas. Um pagode num jardim,uma boneca chinesa, que podia ser flor, fruto, madeira,montanha, cidade, Yin, Yang, peixe, jade, água, deusa. Ao ladodo Rio das Pérolas, uma arca de cânfora, o barbeiro de San MaLo, a montanha de Sichuan. Pode ser um fim de tarde deoutono em Pequim, pode vislumbrar-se uma silhueta chinesaou um pescador. Pode ser a melancolia de ter perdido oriquexó e para ali ficar, “sem pernas para andar / e asas paravoar / até ao céu que nunca vi, / até ao mar a marinhar /despido, roto e sem ti, / acabo aqui a definhar”. Pode ser umrelógio de pêndulo, um guarda-sol, um cachimbo de pau-santo.As “Metades do Dragão do Meio” são, sem dúvida, as metadesmais longas e vastas de todas as metades. E isso diz bem dosentido de quem busca, a si mesmo se buscando, o sentido dequem se encontra, de si mesmo se desencontrando, o sentidode quem canta, porque a si mesmo vem cantando.Por isso, o poema derradeiro, “Soube aqui, no templo do céu”,é uma espécie de chave com que se fecha o arco de voltainteira que são estas metades. Poderia ser o canto de deceção,porque, assentes os pés numa ponta desse arco, tem notíciada outra ponta, a que pode ser começo e fim, a que percorre asoutras metades e é por elas percorrida. Metades do meu Dragão15Notícias da terra “que já não assusta Adamastor / que já nãotem Ilha dos Amores / um cais com as velas enroladas / umareal repleto de cruzes / uma terra que voltou a ser cais departida da saudade”. Uma terra que, indagada da suaidentidade, respondeu como o Romeiro de outras andanças ouUlisses diante do Polifemo: “Ninguém”. Podia ser o poema dodesencanto final; mas não, que o poeta sabe, de um sabervivido, que há sempre que rumar a outro norte, há semprenovas rimas por achar: “mas eu sou essa terra / sou essecorpo, esse nome, esse fado”. E assim, num lance último deesperança, o canto se assume como voz de um destinocoletivo, sempre em busca de novo norte.Personagem polifónica, polícroma e multímoda, o eu quenestes poemas se desnuda e se esconde, porque tanto semostra, quanto se resguarda, é um ser de muitas pátrias,quase tantas quantas as suas errâncias. O que não é omesmo, importa dizê-lo, que um ser apátrida, sem terra nemquintal nem aconchego. Este eu, ora tem o seu lugar de eleiçãonos arroios e riachos da infância, ainda a saber a inocência,ora o exibe à beira do Rio das Pérolas ou nas ruas mágicas dePequim. Porque o sol deste eu, se é certo que nasce sempre aoriente, porque é esse, por condão etimológico, o berço do solnascente, e se põe a ocidente, por não poder ele pôr-se emoutro lugar, que assim manda a linguagem, ora tem o oriente aum lado, ora a outro, consoante lho ditar a emoção e o lugaronde firma os pés. E o ponto de onde vê nascer o sol jamaislhe dita a grandeza ou a intensidade dos afetos e dasemoções. Dita-lhe, quando muito, uma feição diferente de amare, porventura, o objeto do amor.Quis o poeta ou a mão que por ele escreve os versos – e, pormuito que o não queira a moderna crítica, essa mão tem donoe é inseparável de Manuel de Pinho, o nome que deixougravado na portada –, quis o poeta organizar em cronologia,parece, as suas metades.Bem se esforçou por arrumar, primeiro, as “Metades da minhametade”, depois, as “Metades da raiz”, a seguir, as “Metadesdo céu” e, por fim, as “Metades do Dragão do Meio”. Não foipor acaso que o fez. Nascido poeta já em horas tardias,quando o rumo do Oriente era, aparentemente, definitivo, assim M. T. de Pinho16desenhou o percurso trilhado, desde as planuras e serranias dainfância até às flores e águas e gentes da idade madura.Mas a vida está longe de ser uma longa avenida em linha reta,e a vontade dos poetas ou a interpretação que fazem da suaobra estão longe de ser as mais legítimas. Os poemas,escritos, todos eles, em Macau, espelham sem ambiguidadesuma raiz enraizada, se é consentida a redundância, no Orienteextremo . A luz que se entreabre difusa, nos versos queevocam a infância, os odores, o canto das aves, a magia dascoisas, uma espécie de panteísmo próprio de toda a poesialírica, tudo isso só é legível à luz de Macau, da China, onde opoeta deixou, pouco a pouco, afundar as suas raízes maistardias.A verdade é que o tempo destas “metades” tanto pode ser umtempo sem tempo (e não parece que assim seja), como podeser um tempo sem cronologia e sem fronteiras (e parece queassim deve ser).... Até...... Até tudo desembocar nas “Metades do Dragão do Meio”.Dito de outra forma, desembocam os versos, na suaorganização para leitor consumir – e não por acaso, uma vezmais, que assim o quis a mão do poeta, Manuel Pinhochamado – desembocam os versos ali à beira do Rio dasPérolas ou do templo da deusa A-Ma.Aí se acumulam rostos, luzes, rastos, espaços, territórios,restos, recantos, objetos, coisas e pessoas, preciosidades etrastes, novidades e velharias, águas e flores, odores e ruas,templos e casas. O mobiliário mais recente da morada últimaque o poeta povoou de seus dias, seus silêncios, suasinsónias, seus vagares e divagações, suas frustrações e suasesperanças, suas estâncias e suas errâncias.Deliberadamente o quis o poeta, não sabemos se por opçãocronológica, assim organizando a sequência dos tempos dopercurso agora arrumados na desconexão da poesia, se poropção hierárquica, escalonando em degraus a importância dosafetos e das emoções, levados da base até ao cume, o mesmocume, afinal, de onde espreita, agora, o caminho percorrido.Pode ser muitas coisas a poesia. Lugar de desnudamento,como acima se sugere. Lugar de encontro. Lugar de Metades do meu Dragão17desencontro, também. Lugar de solilóquio ou de monólogo,mas também lugar de diálogos, múltiplos, repartidos, e lugar declamor. Lugar de sonho, dizem, e lugar de húmus, que é ondese amassam as raízes. Lugar de onde se contempla o sol aprumo, na cal dorida do meio dia, como poderia ter dito, se éque o não disse, Eugénio de Andrade, lugar onde se respira orosa vivo da flor de lótus que há em cada um de nós e lugaronde a luz mortiça do poente se confunde com a magia milenarque se ergue, lenta e imensa, do imenso e lento rio.Mas a poesia será, também, o baú que no sótão guardamos eonde se arrecadam as lembranças, os afetos, as emoções, assendas, trilhos, vielas, escarpas, o que for que tenha povoadoo caminho percorrido. O baú que somente abrimos ouentreabrimos quando a nostalgia (chamemos-lhe saudade,porque não?) soa mais fundo e mais forte, no silêncio ondetodos os abismos se cruzam, se desvanecem, e onde todos osfascínios desaguam. O baú do sótão que é o espaço último daintimidade resguardada.A poesia mora aí, nesse recanto, nessa caixa fechada, nesselugar recatado. Para se visitar quanto aí se guarda, quando anoite é mais intensa, quando a nostalgia é mais viva, quando asede é mais aguda. Esse é o lugar e o tempo em que secontempla quanto se acumulou, ninharias e tesouros, nosilêncio irrepetível e incomunicável. E é então que o poetaescolhe o que pode partilhar, em desnudamento consentido.? esta partilha consentida que nos deixa Manuel de Pinho. As“Metades do meu Dragão”. Mas não nos iludamos. Não estãoaqui as metades todas. Porque, no mais fundo, profundo, doDragão, da raiz da própria metade, do céu ou do Dragão, elemesmo, haverá muito mais metades para verter em canto.Esse será sempre o segredo por desvendar de cada poeta.Carlos Ascenso André

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