ATRITO

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“No dia em que eu vim-me embora, minha mãe chorava em aí, minha irmã chorava em ui e eu nem olhava prá traz!” Ler o conjunto de poemas de Jurandir Barbosa denominados Atritos, trouxe-me à memória a cena descrita em música por Caetano Veloso, que coloquei em epígrafe. Tanto nela quanto no conjunto dos poemas o que temos em mãos é o choque / atrito entre duas situações díspares. O leitor pode se perguntar por que para apresentar este conjunto de poemas ressuscito uma cena descrita em música nos anos 1970? Esta foi uma questão que também me coloquei, mas enquanto li os poemas de um só fôlego, a música do cantor de Santo Amaro da Purificação não me saiu da memória. Ao reler Atritos comecei a entender a questão colocada no parágrafo anterior. Ambos os poetas saíram de cidades do interior e se transferiram para a principal metrópole brasileira, a musa Sampa cantada por um e poetizada pelo outro. Se um quando se viu “sozinho, vi que não entendia nada, nem de pro que eu ia indo, nem dos sonhos que eu sonhava”, o outro mergulha em uma memória labiríntica que o transporta da capital para o sertão, da rua bocaiúva para Guarulhos, da igreja dos Morrinhos onde se casou para a cidade de Recife e de muitos outros deslocamentos entre dois pontos distintos na realidade brasileira. Ao mesmo tempo, Jurandir em seu Atritos, ou seja, seu conjunto de poemas disponibilizados neste livro aos seus leitores, nos transporta de sua realidade cotidiana aos seus sonhos, também, cotidianos; de suas lembranças musicais as suas referências poéticas, do corpo de sua amada aos oníricos corpos das meninas que passam, ainda que em sonhos e desejos. Nesse ir e vir entre cidades, dimensões, domínios, Jurandir Barbosa nos fala dos encontros / desencontros vivenciados por qualquer um de nós humanos na rotina de nossas vidas, seja como realidade poetizada, seja como desejo inscrito no poema e de tal forma inscrito que, como tatuagem (ainda que por alguns momentos) se coloquem em nossa memória e nos faça viajar em nossa realidade pessoal. Ao atritar realidade e memória, fisicalidade e desejabilidade, romance e amizade, dentre outros pares de aspectos tratados em seus poemas, Jurandir Barbosa nos remete a nós mesmos, como nossas disparidades de aspectos que se atritam em nós. Como humanos, não somos harmônicos em nós mesmos, dada nossa incompletude, dado nosso querer ir sempre além ou aquém de nós mesmos e daí, nossas disparidades que aparentam, às vezes, incoerências, mas que em nossa trajetória nos mostram o desenho de nós mesmos na trama do nosso viver. Asseguro aos leitores que o conjunto de poemas do Jurandir Barbosa, denominado Atritos vai tocá-lo desde suas vísceras até ao seu âmago anímico e fazê-los transportar-se da particularidade do viver em uma cidade do interior, em uma vila ou bairro da cidade grande, até à cidade grande. Ao mesmo tempo, do corpo da amada com quem se reparte cotidianamente a cama, ao corpo desejável da garota que passa, ou da vizinha que nos observa, nos roça, quase nos toca e que em delírios se posta em nosso corpo. Da música ouvida em uma rua qualquer ao poema lido em algum lugar e que naquele instante fugidio das memórias se coloca ante nós mesmos. Não acredito que os Atritos poetizados por Jurandir Barbosa sejam apenas dele, pois creio ser de todos nós. E para percebê-lo, basta abrir a memória pessoal no contato com cada uma das realidades expostas em palavras ante nossas sensibilidades e nossas vivências e, ao final, ou como se diz em poema, ao cabo e ao rabo, veremos todos que vivemos em Atritos, entre nossas dimensões de vida e de sujeito em si. João Batista de Almeida CostaAntropólogo, Professor e PesquisadorFronteiras do verão / outono, 2011

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