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O Arquivo Digital do Livro do Desassossego e o futuro da publicação digital

Créditos da imagem: Biblioteca Municipal de Portugal

 

Já está online desde Dezembro de 2017 um dos mais inovadores recursos para investigadores: o Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Dessossego. A obra pessoana dá corpo ao projeto, uma opção sustentada pelas suas peculiares características – em simultâneo vasta e modular – e pela sua riqueza conceptual.

Entrevistámos o mentor e coordenador da iniciativa, o Professor Manuel Portela, da Universidade de Coimbra, para conhecer mais a fundo a investigação que originou o Arquivo, bem como as suas potencialidades e benefícios para a comunidade científica.

 

O Arquivo Digital do Livro do Desassossego e o futuro da publicação digital

Créditos da imagem: https://projetoldod.wordpress.com/2013/10/20/manuel-portela-sobre-o-arquivo-ldod/

 

 

Como surgiu a ideia de criar um arquivo digital colaborativo? A que ano se remonta e que parcerias se estabeleceram para constituir a sua equipa multidisciplinar?

A ideia tomou forma progressivamente, a partir de abril de 2009. A primeira ideia era a de criar uma meta-edição, isto é, uma edição que permitisse comparar as diferentes edições do Livro do Desassossego. Esta comparação seria feita a três escalas: à escala da transcrição do texto, palavra a palavra; à escala da divisão e agregação dos parágrafos em textos, e de partes de textos em textos maiores; e, por fim, à escala do livro no seu todo, isto é, à escala da ordenação relativa de todos os textos e fragmentos atribuídos à obra.

Esta primeira ideia de fazer uma edição das edições existentes (portanto uma representação das formas históricas que o Livro foi tomando) deu depois origem a outra: por que não criar a possibilidade de fazer edições virtuais, isto é, de experimentar outras seleções e ordenações do fragmentos? O conhecimento dos problemas editoriais do livro poderia assim fazer-se não apenas através da observação dos procedimentos dos peritos que tinham transcrito e estudado o arquivo autógrafo de Fernando Pessoa, mas através da manipulação dessas transcrições em novas permutações. Tratava-se, no fundo, de usar as funcionalidades colaborativas do meio digital para socializar a projetualidade editorial da obra num conjunto de leitores-editores virtuais. A natureza colaborativa refere-se não apenas à colaboração que os diferentes editores virtuais podem manter entre si na plataforma, mas à própria noção de socialização do arquivo autoral e editorial da obra como material disponível para novas experiências no espaço textual aberto e dinâmico que designámos “Arquivo LdoD”.

A ideia transformou-se depois num projeto de investigação, já em 2011, com uma componente de edição crítica digital e uma componente de engenharia de software, além de uma componente de teoria literária. Este projeto associou o Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra (CLP), o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Investigação e Desenvolvimento em Lisboa (INESC-ID) e a Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), tendo sido financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e pela União Europeia. O desenvolvimento técnico e concetual, que culminou na ideia inovadora de um arquivo textual dinâmico e interativo, dependeu da colaboração estreita entre os responsáveis pelas componentes computacional e textual. Depois de seis anos de desenvolvimento (2012-2017), foi finalmente publicado em dezembro passado.

Porque escolheu precisamente o Livro do Desassossego para dar corpo à ideia?

De facto, quando comecei a imaginar uma obra que pudesse ser objeto de uma remediação experimental – isto é, uma remediação que abandonasse os modelos bibliográficos de edição crítica –, o Livro do Desassossego surgiu como a obra ideal. Por um lado, porque a sua intensidade literária e o seu apelo à imaginação dos leitores justificava um investimento de recursos desta escala. Por outro lado, porque é uma obra modular, ou seja, composta por muitas unidades com um certo grau de independência entre si. Essa é uma das caraterísticas que aproxima a materialidade modular dos manuscritos, datiloscritos e impressos da obra e a materialidade modular dos objetos digitais. Digamos que essa particularidade formal do Livro do Desassossego estimula a imaginação computacional. O Livro do Desassossego é um livro em construção e aquilo que eu queria mostrar era a processualidade dessa construção, seja a construção escrita autoral, seja a construção escrita editorial. Tentámos usar o meio digital de modo a realçar a projetualidade do livro enquanto horizonte material e concetual. Não nos interessava fazer mais “um” Livro do Desassossego ou tentar fazer “o” Livro do Desassossego. Interessava-nos desfazer o Livro do Desassossego e ver o que podíamos aprender com isso.

Pode descrever brevemente os modos de consulta do Arquivo, de modo facilitar a navegação no mesmo?

O Arquivo LdoD tem múltiplos modos de consulta, com diferentes níveis de complexidade – quisemos que fosse tão interessante para um leitor que encontra a obra pela primeira vez, como para um investigador avançado, incluindo aqueles que quiserem fazer novas edições críticas da obra. Só o tempo dirá se conseguimos essa amplitude de comunicação. Como é explicado na sua autodescrição, o Arquivo LdoD tem, neste momento, cinco funcionalidades principais, expressas em cinco interfaces diferenciadas: Leitura, que permite leitura da obra de acordo com diferentes sequências; Documentos, que oferece a listagem de todos os fragmentos e informação acerca das fontes; Edições, que permite visualizar os autógrafos e comparar as transcrições das diversas edições; Pesquisa, que serve para a seleção de fragmentos de acordo com múltiplos critérios; e Virtual, destinada à criação de edições virtuais e respetivas taxonomias. Haverá ainda uma sexta interface (ainda em desenvolvimento) designada Escrita, com o objetivo de promover a escrita de variações a partir dos fragmentos.

Que vantagens encontra nesta desmaterialização do livro físico que se tem verificado na última década? De que modo se correlaciona com o crescimento da publicação em ebook?

Uma das vantagens é a socialização em larga escala dos processos de escrita, leitura, edição e publicação, que se afastam dos modelos individualistas e possessivos da cultura impressa. O meio digital flexibiliza os papéis desempenhados no sistema literário, redistribuindo a criatividade, o conhecimento, a experiência e a linguagem em configurações diferentes daquelas que associamos ao livro. Todavia, a desmaterialização do livro ainda não desfez nem recodificou o livro de modo radical, na medida em que o livro eletrónico continua preso ao horizonte bibliográfico. Mas existe o potencial para passarmos para além desse horizonte em direção a um modelo reticular, colaborativo, reconfigurável, no qual a reificação do objeto como marcador de autoria ou de valor capitalizável deixe de ser o atributo essencial do livro.

O crescimento do e-book é, em muitos aspetos, a tentativa de recriar no universo eletrónico o mercado dos livros impressos, com a vantagem da distribuição instantânea no espaço cibernético. No entanto, não é ainda, na maior parte dos casos, uma reinvenção do livro, mas antes uma emulação da forma e das funcionalidades do livro impresso, com reconfigurações limitadas dessas funcionalidades.

Como encara a coexistência da publicação em papel com os novos suportes virtuais? Complementaridade ou suplantação dos primeiros pelos segundos?

Creio que, observando as últimas duas décadas, podemos definir essa relação de três modos: como uma relação de complementaridade e especialização, que faz com que os géneros modulares (dicionários, enciclopédias, manuais, etc.) migrem de forma acelerada para o meio digital, enquanto os géneros de leitura contínua se mantêm ainda com uma forte presença no meio impresso; como uma relação de competição, em que certos géneros impressos lutam para sobreviver sob formas impressas tradicionais ou sob formas híbridas (jornais, revistas, etc.); e, por último, como uma relação de retroação do digital sobre o impresso que leva à intensificação da materialidade do livro impresso, reinventando a sua expressividade. Digamos que a ecologia medial continua a revelar, neste campo, um grande dinamismo, embora estejamos talvez mais perto do que nunca de um universo de comunicação sem publicação em papel.

Na Bubok preocupamo-nos com a pertinência e a praticidade dos suportes oferecidos aos autores e, neste sentido, oferecemos um catálogo completo de serviços digitais e em papel. Temos orgulho em acompanhar e apoiar as várias vidas da obra literária – antes, durante e após a sua fruição.

 

2 comentários para “O Arquivo Digital do Livro do Desassossego e o futuro da publicação digital”
  1. Equipa BUBOK.pt
    Marcos Girão

    Parabéns ao Professor Manuel Portela pelo excelente trabalho que tem realizado.

  2. Equipa BUBOK.pt
    Equipa BUBOK.pt

    Concordamos consigo, Marcos, é um contributo de um valor inestimável!

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