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Metades do meu Dragão

Impostos e envio não incluídos
  • Autor: Manuel Tavares de Pinho
  • Estado: Público
  • Nº de páginas: 120
  • Tamanho: 170x235
  • Miolo: Preto e branco
  • Paginação: Colado
  • Acabamento da capa: Brilho
Ver ficha técnica completa
Há quem viva o mundo como uma encruzilhada sem fim. Há quem o navegue na rejeição teimosa, por convicção ou inteireza, de bússolas ou astrolábios. Há quem dele trace um mapa e no mapa trace as rotas, não de destinos e rumos e etapas, mas, antes, as rotas da procura de via incerta e nortes por saber. Há quem em cada barco construa um convés sem proa e nele um passadiço de onde perscruta rumo e norte e destino. E horizonte, por mais não buscar que a si mesmo. Essa poderia ser a imagem deste livro. Esta é, afinal, uma busca de quem a si mesmo se procura. E de quem, alongados os passos nessa busca, nunca se encontra. “Metade de mim / é não ser metade de mim / e a outra metade também”, assim proclama o poema primeiro. Poderia ser mais evidente esta certeza? Porque as metades são como linhas paralelas; paralelas até ao infinito, pois nos afiança a crença antiga que nunca se encontram, posto que a mais moderna física nos garanta que hão-de encontrar-se, sim, lá onde o horizonte se perde de vista, se é que esse ponto existe na cartografia por inventar. São assim estes poemas, assumidamente feitos de metades. De metades, acrescente-se, dispersas pelo mundo ou, se se preferir plagiar um outro poeta, pelo mundo em pedaços repartidas, o que é o mesmo. Porque este é um percurso de viagem, de errância, de desencontro. E é, desde logo, um livro de raízes. Não, não são, apenas, as raízes na infância, na pátria distante, nesse outrora que um dia ficou adormecido no tempo sem tempo de uma idade perdida. São essas raízes, é certo, que ali estão, logo no começo, mas também outras que nascem em meio da viagem poética e um pouco por todas as páginas desconjuntadas deste livro sem arrimo nem arrumo de datas e sem fio de prumo de cronologias. Metades do meu Dragão 13 O eu que escreve estes poemas não é, não pretende ser, unívoco no que a raízes diz respeito. As raízes serão, afinal, as suas metades. Porque a matemática, aqui, é a negação da lógica. E o todo inteiro que nestas páginas se plasma e se desvela é demasiado complexo para se encerrar, apenas, em duas metades. Ao arrepio da razão matemática, as metades deste todo, aqui, são muitas. Tantas quantas as raízes. Raízes dentro de si, desde logo, que é onde se enraízam todos os poemas. São as “Metades da minha metade”, tentativa vã de esboçar o retrato da identidade, que do esboço tosco não passa, porque a identidade aqui pintada não se compadece com traços finos e certeiros, muito menos precisos. Pertença de marinheiro de torna-viagem, sem cais definitivo, amarrado à utopia de um barco de papel, poeta descrente de si, errante entre o nascimento e a origem e a morte anunciada em epitáfio falhado, são metades que nunca se encaixam, por serem parte de uma identidade que em vão se procura. Raízes da terra deixada um dia, no Portugal longínquo, no tempo da infância, da adolescência, da juventude. São essas as “Metades da raiz”, metades desconjuntadas, em boa verdade, por adensar cada raiz (e muitas são) em ramificações mil. É a raiz da língua, expressa na palavra saudade, na palavra pátria, na palavra amor, na palavra madrugada. É a raiz feita dos rios da aldeia, ribeiro sem “desassombros”, um rio que “não é o fim do princípio, / nem o princípio de nada”; a não ser, mas isso o poeta o não vê, o princípio de tudo, do seu tudo; são as cores da aldeia, as folhas da aldeia. Mas as “metades da raiz” só na aparência são um regresso à aldeia, à infância, à raiz. Prova disso é a metáfora do xadrez e do seu “cruzadismo labiríntico”, onde se resguarda, cabeça pousada na “almofada de poeta morto”. Sinal inequívoco de que aquele princípio nem é princípio nem é ponto de paragem. Raízes dos afetos ou, talvez melhor, raízes nos afetos, nas emoções, as raízes daquela busca que só há no verbo amar. “Metades do céu” lhes chama, e esse batismo tem a sua carga simbólica. M. T. de Pinho 14 Aí se cruzam o sonho e a morte, o regresso e o desencontro, o amor levado numa pétala, uma só, a quem sabe “a cor de todas as flores”; aí se cruzam, ainda, a noite e a palavra. Essas são as metades onde tudo cabe: as “sete luas”, as “sete rosas”, as “sete pedras”, as “sete imagens”, os “sete beijos”. E mil flores, de pétalas vivas ou de papel, que aguardam, pacientemente, enquanto a espera caminha num roseiral qualquer. Raízes nos lugares visitados, novos céus, novos azuis, nova pátria, quem sabe?, por opção assumida, que este eu lança raízes onde o húmus for fecundo e o sentimento encontrar terreno fértil para florescer. São, enfim, as “Metades do Dragão do Meio”, que nos remetem, quase sem ambiguidades, para novos céus, novas raízes, novos afetos. Aí passam diante de nossos olhos, porque diante dos olhos da lembrança de quem no-las traz, objetos, lugares, espaços, pessoas. Um pagode num jardim, uma boneca chinesa, que podia ser flor, fruto, madeira, montanha, cidade, Yin, Yang, peixe, jade, água, deusa. Ao lado do Rio das Pérolas, uma arca de cânfora, o barbeiro de San Ma Lo, a montanha de Sichuan. Pode ser um fim de tarde de outono em Pequim, pode vislumbrar-se uma silhueta chinesa ou um pescador. Pode ser a melancolia de ter perdido o riquexó e para ali ficar, “sem pernas para andar / e asas para voar / até ao céu que nunca vi, / até ao mar a marinhar / despido, roto e sem ti, / acabo aqui a definhar”. Pode ser um relógio de pêndulo, um guarda-sol, um cachimbo de pau-santo. As “Metades do Dragão do Meio” são, sem dúvida, as metades mais longas e vastas de todas as metades. E isso diz bem do sentido de quem busca, a si mesmo se buscando, o sentido de quem se encontra, de si mesmo se desencontrando, o sentido de quem canta, porque a si mesmo vem cantando. Por isso, o poema derradeiro, “Soube aqui, no templo do céu”, é uma espécie de chave com que se fecha o arco de volta inteira que são estas metades. Poderia ser o canto de deceção, porque, assentes os pés numa ponta desse arco, tem notícia da outra ponta, a que pode ser começo e fim, a que percorre as outras metades e é por elas percorrida. Metades do meu Dragão 15 Notícias da terra “que já não assusta Adamastor / que já não tem Ilha dos Amores / um cais com as velas enroladas / um areal repleto de cruzes / uma terra que voltou a ser cais de partida da saudade”. Uma terra que, indagada da sua identidade, respondeu como o Romeiro de outras andanças ou Ulisses diante do Polifemo: “Ninguém”. Podia ser o poema do desencanto final; mas não, que o poeta sabe, de um saber vivido, que há sempre que rumar a outro norte, há sempre novas rimas por achar: “mas eu sou essa terra / sou esse corpo, esse nome, esse fado”. E assim, num lance último de esperança, o canto se assume como voz de um destino coletivo, sempre em busca de novo norte. Personagem polifónica, polícroma e multímoda, o eu que nestes poemas se desnuda e se esconde, porque tanto se mostra, quanto se resguarda, é um ser de muitas pátrias, quase tantas quantas as suas errâncias. O que não é o mesmo, importa dizê-lo, que um ser apátrida, sem terra nem quintal nem aconchego. Este eu, ora tem o seu lugar de eleição nos arroios e riachos da infância, ainda a saber a inocência, ora o exibe à beira do Rio das Pérolas ou nas ruas mágicas de Pequim. Porque o sol deste eu, se é certo que nasce sempre a oriente, porque é esse, por condão etimológico, o berço do sol nascente, e se põe a ocidente, por não poder ele pôr-se em outro lugar, que assim manda a linguagem, ora tem o oriente a um lado, ora a outro, consoante lho ditar a emoção e o lugar onde firma os pés. E o ponto de onde vê nascer o sol jamais lhe dita a grandeza ou a intensidade dos afetos e das emoções. Dita-lhe, quando muito, uma feição diferente de amar e, porventura, o objeto do amor. Quis o poeta ou a mão que por ele escreve os versos – e, por muito que o não queira a moderna crítica, essa mão tem dono e é inseparável de Manuel de Pinho, o nome que deixou gravado na portada –, quis o poeta organizar em cronologia, parece, as suas metades. Bem se esforçou por arrumar, primeiro, as “Metades da minha metade”, depois, as “Metades da raiz”, a seguir, as “Metades do céu” e, por fim, as “Metades do Dragão do Meio”. Não foi por acaso que o fez. Nascido poeta já em horas tardias, quando o rumo do Oriente era, aparentemente, definitivo, assim M. T. de Pinho 16 desenhou o percurso trilhado, desde as planuras e serranias da infância até às flores e águas e gentes da idade madura. Mas a vida está longe de ser uma longa avenida em linha reta, e a vontade dos poetas ou a interpretação que fazem da sua obra estão longe de ser as mais legítimas. Os poemas, escritos, todos eles, em Macau, espelham sem ambiguidades uma raiz enraizada, se é consentida a redundância, no Oriente extremo . A luz que se entreabre difusa, nos versos que evocam a infância, os odores, o canto das aves, a magia das coisas, uma espécie de panteísmo próprio de toda a poesia lírica, tudo isso só é legível à luz de Macau, da China, onde o poeta deixou, pouco a pouco, afundar as suas raízes mais tardias. A verdade é que o tempo destas “metades” tanto pode ser um tempo sem tempo (e não parece que assim seja), como pode ser um tempo sem cronologia e sem fronteiras (e parece que assim deve ser). ... Até... ... Até tudo desembocar nas “Metades do Dragão do Meio”. Dito de outra forma, desembocam os versos, na sua organização para leitor consumir – e não por acaso, uma vez mais, que assim o quis a mão do poeta, Manuel Pinho chamado – desembocam os versos ali à beira do Rio das Pérolas ou do templo da deusa A-Ma. Aí se acumulam rostos, luzes, rastos, espaços, territórios, restos, recantos, objetos, coisas e pessoas, preciosidades e trastes, novidades e velharias, águas e flores, odores e ruas, templos e casas. O mobiliário mais recente da morada última que o poeta povoou de seus dias, seus silêncios, suas insónias, seus vagares e divagações, suas frustrações e suas esperanças, suas estâncias e suas errâncias. Deliberadamente o quis o poeta, não sabemos se por opção cronológica, assim organizando a sequência dos tempos do percurso agora arrumados na desconexão da poesia, se por opção hierárquica, escalonando em degraus a importância dos afetos e das emoções, levados da base até ao cume, o mesmo cume, afinal, de onde espreita, agora, o caminho percorrido. Pode ser muitas coisas a poesia. Lugar de desnudamento, como acima se sugere. Lugar de encontro. Lugar de Metades do meu Dragão 17 desencontro, também. Lugar de solilóquio ou de monólogo, mas também lugar de diálogos, múltiplos, repartidos, e lugar de clamor. Lugar de sonho, dizem, e lugar de húmus, que é onde se amassam as raízes. Lugar de onde se contempla o sol a prumo, na cal dorida do meio dia, como poderia ter dito, se é que o não disse, Eugénio de Andrade, lugar onde se respira o rosa vivo da flor de lótus que há em cada um de nós e lugar onde a luz mortiça do poente se confunde com a magia milenar que se ergue, lenta e imensa, do imenso e lento rio. Mas a poesia será, também, o baú que no sótão guardamos e onde se arrecadam as lembranças, os afetos, as emoções, as sendas, trilhos, vielas, escarpas, o que for que tenha povoado o caminho percorrido. O baú que somente abrimos ou entreabrimos quando a nostalgia (chamemos-lhe saudade, porque não?) soa mais fundo e mais forte, no silêncio onde todos os abismos se cruzam, se desvanecem, e onde todos os fascínios desaguam. O baú do sótão que é o espaço último da intimidade resguardada. A poesia mora aí, nesse recanto, nessa caixa fechada, nesse lugar recatado. Para se visitar quanto aí se guarda, quando a noite é mais intensa, quando a nostalgia é mais viva, quando a sede é mais aguda. Esse é o lugar e o tempo em que se contempla quanto se acumulou, ninharias e tesouros, no silêncio irrepetível e incomunicável. E é então que o poeta escolhe o que pode partilhar, em desnudamento consentido. É esta partilha consentida que nos deixa Manuel de Pinho. As “Metades do meu Dragão”. Mas não nos iludamos. Não estão aqui as metades todas. Porque, no mais fundo, profundo, do Dragão, da raiz da própria metade, do céu ou do Dragão, ele mesmo, haverá muito mais metades para verter em canto. Esse será sempre o segredo por desvendar de cada poeta.

Carlos Ascenso André
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