Procurar na Bubok

Manu Scriptum XX - Livro 2

  • Autor: Manuscriptum.xx
  • Estado: Público
  • Nº de páginas: 276
  • Downloads: 583
Ver ficha técnica completa

 

“…veiu-me a dizer e disse que ia para ch Chaves e dis que em todos os quarteis que dão fome…”

 

“…peçote que pesas aos que mandam em ti que te pacem um papel para cá poderes trabalhar se não não podes trabalhar…”

 

“…Não me digas que com 24 meses ainda vais para fora…”

 

“…tem o corpo cheio de cobrão olha agora sou eu sózinha a ganhar tu não desanimes…”

 

“…o dinheiro esta-se acabar até me está a doer a barriga não sei como há-de ser depois vê lá se popas esse dinheiro que já não deves ter mais…”

 

“…o outro de cá do concelho que tu mandas-te fugiu peso-te para não fazeres o mesmo que tenhas sempre juizinho…”

 

“…disses que o outro ainda anda por aqui pois tu não fazas o mesmo que é um desgosto para mim…”

 

“…oblá o quartel está de prevenção então são muitos pretos que aí estão bateram a algum soldado dos nossos…”

 

“…o nosso governo só dá fome…”

 

[http://manuscriptumxx.blogspot.com/]

 

“A escrita é a fonte de todo o progresso humano intimamente ligada à memória e intrinsecamente à cultura, assim estes manuscritos na sua verdade gráfica contam muito mais que a soma das suas palavras. Para lá dos registos orais e das fugazes partilhas que se vão perdendo a par com os protagonistas deste momento da história nacional, permanece o discurso escrito, mesmo que resultado de uma condição social mais debilitada por um sistema político que primava pela analfabetização cultural. Estes extractos de correspondência constituem um testemunho empírico, uma visão íntima de um país subjugado pela guerra, cujas vítimas excedem os mortos e os militares, menos evidentes mas imprescindíveis a uma contextualização histórica são também as famílias e o seu confronto com as inevitáveis alterações de costumes e percursos.

(…)

Como lida uma mãe com esta realidade: a partida de um filho para o cumprimento de um serviço militar com fortes possibilidade de ser “mobilizado” para combate? Que transmite quando nem escrever sabia e, no entanto, tantas cartas lhe remeteu?

(…)

Este conjunto de cartas constitui um testemunho, tão feminino quão masculino, de uma fracção dessa realidade, num desenrolar crescente de constatações acerca das condições da recruta, das carências económicas inerentes às famílias que ficaram desprovidas de uma fonte de rendimento, até à ignorância da população acerca das realidades da Guerra no Ultramar.”

 

...[ler mais]
Não existem comentários sobre este livro Registe-se para comentar este livro