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Agostinho Fernandes

Desde que o homo erectus evoluiu para o homo sapiens, grau em que, como sabemos, o ser humano se encontra presentemente, o nosso cérebro, dentro da sua unidade, é composto de três sectores distintos ou seja de três cérebros diferenciados: o complexo reptiliano, que começou a existir desde que surgiu a ordem animal dos répteis, e que lhe deu o nome, e que tinha apenas duas funções básicas, a manutenção do indivíduo e a manutenção da espécie. Eram as únicas funções necessárias e suficientes. Os répteis, até os enormes dinossáurios que dominaram a terra por milhares de anos, não precisavam mais do que estas duas funções. Com o passar do tempo, na fase em que na escala da evolução apareceram os mamíferos, porque as condições ambientais assim o exigiram e também o desenvolvimento assim determinou, juntou-se a este cérebro inicial uma outra formação cerebral a que se chamou o sistema límbico, ou o cérebro mamaliano, ao qual cabiam as funções do domínio das emoções como a dor, a tristeza, o prazer, etc. A evolução continuou e, ao fim de vários milhares de anos, a estes dois cérebros juntou-se uma terceira formação cerebral conhecida por neocortex à qual cabia uma dupla função: primeiro a elaboração do pensamento e daí a formação de ideias, da imaginação e ainda da fala, e a segunda a de controlar os três cérebros, para no conjunto agir como se fosse um único. Assim, este cérebro triuno, funcionava como se fosse um único cérebro, sempre sob a batuta do córtex, qual dirigente de uma orquestra onde cada instrumentista toca a sua partitura individual, mas sempre sob a supervisão do orientador. Passa-se assim com um cérebro normal. Porém, as vezes, por diversas razões, o córtex falha na sua missão de controlador dos três cérebros, e a coexistência pacífica desagrega-se. O maestro perde a capacidade de mando e a orquestra começa a desafinar. Cada instrumentista toca a seu belo prazer. Assim, cada cérebro começa a actuar autonomamente, originando um descontrole geral, criando uma situação patológica ou seja uma doença a qual se dá o nome de dissociação cerebral.

                É isto que se passa com o protagonista deste intrigante romance, que, por razões várias, fica a sofrer desta terrível mal que até a presente data não tem cura possível. Mesmo assim os médicos portugueses iniciam uma luta sem quartel para salvar o homem. É uma luta titânica que, se for bem-sucedida, graças a total alteração dos meios tradicionais de curar as doenças no geral, será comparável, em grandeza, à gloriosa aventura dos intrépidos marinheiros portugueses que, orientados pelo Infante D. Henriques, em frágeis cascas de noz, enfrentando procelas sem fim, deram ao mundo novos mundos, elevando bem alto o nome de Portugal.

É assim titânica a luta dos cientistas portugueses, que, denodadamente, lutam para subtrair o pobre paciente à aquela terrível situação de dissociação cerebral, sabendo, de antemão, quão mínimas são as probabilidades de êxito.

Será que a ciência portuguesa conseguirá dominar este terrível mal, dando ao mundo uma nova, inédita e desassombrada forma de curar as doenças, escrevendo, em letras de ouro, uma nova epopeia, comparável a da descoberta do caminho marítimo para a Índia?